Fique Diva - Conheça o Clube das Pretas, consultoria especializada em cabelos crespos e cacheados: 'A mulher negra precisava de um lugar para ser tratada com respeito'

13/04/2018 / Publicado por Vitória Quirino

Conheça o Clube das Pretas, consultoria especializada em cabelos crespos e cacheados: 'A mulher negra precisava de um lugar para ser tratada com respeito'

Andressa e Renata se uniram para criar o Clube das Pretas, que é uma consultoria especializada em cabelos naturais que possuem curvatura

Andressa e Renata se uniram para criar o Clube das Pretas, que é uma consultoria especializada em cabelos naturais que possuem curvatura

O método de avaliação começa com uma conversa em que cada cliente conta sua história com o cabelo

O método de avaliação começa com uma conversa em que cada cliente conta sua história com o cabelo

Eu, Vitória Quirino, repórter do Fique Diva, assumi meu crespo em outubro de 2015 e sempre tive muita resistência em confiar os cuidados das madeixas à um profissional

Eu, Vitória Quirino, repórter do Fique Diva, assumi meu crespo em outubro de 2015 e sempre tive muita resistência em confiar os cuidados das madeixas à um profissional

Não adianta se apegar ao comprimento! Depois de quase três anos sem cortar os cabelos chegou a hora de acertar a forma para que os fios cresçam de maneira uniforme

Não adianta se apegar ao comprimento! Depois de quase três anos sem cortar os cabelos chegou a hora de acertar a forma para que os fios cresçam de maneira uniforme

A diferença do antes e depois mostra como o corte faz toda diferença na aparência dos cachos

A diferença do antes e depois mostra como o corte faz toda diferença na aparência dos cachos

A logo do Clube das Pretas representa diversas curvaturas e tipos de fio, demonstrando a variedade de cachos que podem existir em apenas um cabelo

A logo do Clube das Pretas representa diversas curvaturas e tipos de fio, demonstrando a variedade de cachos que podem existir em apenas um cabelo

Mesmo com a crescente da aceitação dos cabelos naturais, ainda é um desafio para as crespas e cacheadas encontrar profissionais e locais especializados para esses tipos de fio. Com a intenção de mudar esse panorama negativo, Andressa Abreu e Renata Varella se uniram para criar uma consultoria que atende madeixas de todas as curvaturas. O Clube das Pretas fica localizado no Humaitá, Rio de Janeiro, e oferece uma experiência de cuidados diferenciada e muito mais pessoal. Em entrevista ao Fique Diva, as cabeleireiras explicaram como surgiu o clube e compartilharam informações sobre seu método de tratamento que é livre de química, petrolato e parafinas. Vem conferir!

FD: Como surgiu a ideia do Clube das Pretas?

Renata: Nos conhecemos há um ano atrás em uma viagem para Ubatuba com uma amiga em comum. Durante esse tempo na casa de praia, começamos a cuidar do cabelo de todas as seis meninas que estavam conosco, apenas com os produtos que tínhamos na mala para evitar os danos do sol e da maresia. Elas eram alisadas, mas mesmo assim a gente conseguiu trazer ondas, cachos e tudo que tinha de bom nos cabelos delas.

Nenhuma de nós duas trabalhava com isso, mas já tínhamos um conhecimento acumulado de pesquisas, tratamentos e receitas caseiras para tratar os nossos próprios fios, que são de curvaturas bem diferentes. No fim da viagem, todas decidiram abandonar a química e começaram a surgir os comentários de que mais pessoas precisavam conhecer as nossas instruções. E um mês depois veio a ligação da Andressa, que me procurou para conversarmos sobre a ideia.

FD: Vocês não eram cabeleireiras antes do Clube das Pretas e se tornaram por conta do projeto. Como isso aconteceu?

Renata: A ideia inicial da Andressa era fazer penteados em cabelos naturais, que também é um nicho pouco explorado. Mas não sabemos como trabalhar com essa área e decidimos continuar com o que demonstrou o nosso potencial, que é recuperar cabelos aplicando tratamentos para reposição de nutrientes, sem o uso de química. E depois de algumas semanas de conversa fomos para São Paulo e fizemos capacitação em diversos salões especializados em cabelos crespos e cacheados.

Por fim, entrevistamos alguns fornecedores para entender com quais produtos trabalhar e como usá-los da melhor forma possível. E só então começamos a fazer as consultorias em casa, explicando os procedimentos e ensinando as meninas a tratarem do próprio cabelo, quase como uma aula mesmo. Porém, em determinado momento isso começou a não ser suficiente, precisávamos de um local para fazer um atendimento mais profissional e oferecer os serviços de maneira adequada.

FD: Qual foi principal motivo para que o Clube das Pretas tivesse uma locação própria e como foi o processo?

Renata: Uma das razões que nos levou a abrir um espaço e parar de realizar as consultorias nas casas das clientes, foi perceber que a mulher negra precisava de um lugar para ser tratada com respeito. Queríamos acabar com a cultura de que é preciso ir para um fundo de quintal para cuidar do cabelo crespo e cacheado. O mercado tem que nos atender com dignidade e parar com a visão de que os fios com curvatura só podem ser cuidados com química, seja relaxamento ou progressiva.

Andressa: Já ouvimos histórias de meninas que procuraram profissionais para fazer uma hidratação e saíram do salão com um botox, que é um procedimento alisante. Não existe muito respeito ao que a cliente crespa e cacheada quer, principalmente quando elas procuram por tratamentos sem química. Por isso decidimos dar o próximo passo e começamos com uma parceria em um salão onde sublocamos uma sala. Esse local, que também era especializado em cabelo afro, liberou toda sua estrutura para que a gente pudesse fazer o nosso trabalho.

Depois de um tempo conseguimos encontrar nossa nova locação e aqui fazemos mais do que apenas a consultoria. Nós procuramos passar uma ideia de maior acolhimento, troca entre mulheres e também fazemos encontros de mulheres negras. Nessa nova fase foi possível alcançar a nossa vontade de tirar um pouco o visual e a estrutura de um salão convencional, que não representa em nada o que transmitimos com o nosso negócio. Queremos que as nossas clientes se sintam em casa, bem confortáveis para nos contar suas histórias.

FD: Vocês acham que existe um certo bloqueio nas crespas e cacheadas em confiar nos cabeleireiros após a aceitação do cabelo natural?

Renata: Isso é normal de acontecer aqui, recebemos muitas meninas que estão traumatizadas de experiências anteriores. E cortar é a parte mais complicada, primeiro a gente precisa conseguir a confiança da cliente para que ela entenda que sabemos exatamente o que estamos fazendo. Também é importante explicar os nossos valores para que as meninas compreendam que nós nunca vamos fazer o que elas não querem que seja feito.

 

FD: Como funciona o processo de consultoria?

Andressa: A gente começa com uma avaliação individual em uma sala separada, porque é nesse momento que conhecemos a história do cabelo de cada uma. Algumas meninas choram e algumas contam sobre a infância. Essa primeira etapa é única e sempre procuramos preservá-la de forma particular, em um local e horário que não tenham outras clientes.

Renata: Depois da avaliação lavamos o cabelo para retirar todos os resíduos de petrolato, parafina e as substâncias prejudiciais. E só de deixar os fios bem limpinhos já dá para ver a ondulação e os cachos aparecendo muito mais. Higienizar com os produtos e com técnicas de lavagem adequadas faz toda diferença, pois com as madeixas limpas é possível ver a real situação do fio.

Andressa: A partir da lavagem decidimos qual é o tratamento que o cabelo mais precisa naquele instante, seja hidratação, nutrição ou reconstrução. E é um processo que começa aqui e as meninas devem continuar em casa. Por último fazemos a finalização, secagem dos fios e, se for preciso, cortamos apenas o que é necessário.

O Clube das Pretas é uma consultoria especializada em tratamentos para cabelos naturais sem química

FD: E como é feito o acompanhamento das clientes após as visitas?

Renata: No fim do processo a gente prescreve o que ela deve fazer nas próximas semanas. Isso varia da situação do cabelo e da rotina da pessoa. Porque não adianta falar para uma cliente fazer umectação três vezes por semana se ela não tem tempo para isso. Por esse motivo que a entrevista e a avaliação são essenciais para entender o que cada uma já faz e o que precisa ser inserido na rotina.

Andressa: Com a crescente desse assunto nas redes sociais, muitas meninas já chegam aqui tendo alguma noção do que precisa ser feito nos fios e a gente só vai lapidando esse conhecimento, indicando produtos. Mas também tem clientes que chegam aqui sem nenhuma noção de por onde começar e nós também ensinamos tudo que deve ser feito. E esse acompanhamento é feito por WhatsApp nas semanas posteriores.

FD: Qual é a dúvida mais comum entre as clientes do Clube?

Andressa: Infelizmente a gente recebe muito a pergunta de como cachear o cabelo crespo. No fundo a aceitação do crespo ainda é mais difícil do que a aceitação do cacheado pela sociedade. As pessoas ainda veem de uma maneira diferente e com mais preconceito o cabelo crespo. E a maioria das meninas que querem assumir o cabelo tipo 4 ainda tem dificuldade de lidar com o volume e por não formar cachos abertos.

A nossa intenção é trazer o que há de melhor em cada tipo de fio, respeitando suas características. Um cabelo não precisa ter cachos abertos para ser lindo, e a gente sempre procura desmistificar isso. Por essa razão a logo da nossa marca representa todas as curvaturas exatamente para mostrar que o cabelo crespo e cacheado são irregulares e é normal ter mais de uma curvatura em apenas uma cabeça.

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