Fique Diva - Thayná Alves revela a importância do autoconhecimento e da representatividade para valorizar a própria beleza negra: 'Bonito é ser a gente sem ter medo'

30/10/2017 / Publicado por Marina Couto

Thayná Alves revela a importância do autoconhecimento e da representatividade para valorizar a própria beleza negra: 'Bonito é ser a gente sem ter medo'

Thayná Alves atua no projeto África em Nós, que aborda questão como racismo, cultura negra e empoderamento

Thayná Alves atua no projeto África em Nós, que aborda questão como racismo, cultura negra e empoderamento

Thayná passou por duas transições e já sofreu queimaduras no couro cabeludo por causa de produtos químicos

Thayná passou por duas transições e já sofreu queimaduras no couro cabeludo por causa de produtos químicos

'Reconhecer e enxergar a beleza dos meus iguais e, consequentemente, a minha é o que reconstrói minha autoestima todos os dias', conta Thayná

'Reconhecer e enxergar a beleza dos meus iguais e, consequentemente, a minha é o que reconstrói minha autoestima todos os dias', conta Thayná

Thayná também usa box braids quando quer mudar o visual e adora fazer hidratação de abacate para cuidar dos fios

Thayná também usa box braids quando quer mudar o visual e adora fazer hidratação de abacate para cuidar dos fios

Para Thayná, a transição capilar é um momento de autoconhecimento e liberdade

Para Thayná, a transição capilar é um momento de autoconhecimento e liberdade

Como muitas meninas negras e de cabelos crespos, Thayná Alves já sofreu para se encaixar nos padrões de beleza impostos pela sociedade. No entanto, depois de anos de química e algumas queimaduras no couro cabeludo, a jovem, hoje aos 25, foi buscar referências nas próprias origens e nas histórias de mulheres do seu convívio para melhorar sua relação com o espelho e empoderar outras pessoas. É assim que dialoga sobre racismo, a importância do autoconhecimento e de saber mais sobre a cultura afrobrasileira e africana, com o projeto África em Nós. Thayná bateu um papo muito inspirador com o Fique Diva e a entrevista você confere aqui!

FD: Já fez algum procedimento químico nos fios? Se sim, qual? Durante quanto tempo?

Thayná: Sim. A primeira vez que relaxei o meu cabelo eu tinha sete anos. Consigo lembrar do cheiro forte do creme, da minha cabeça ardendo e do quanto eu não sabia o porquê deveria passar por aquilo. Minha mãe também relaxava o cabelo desde pequena e comigo não foi diferente. Quando falamos em cabelo crespo, não podemos esquecer que falamos também sobre a construção de uma autoestima pautada na negação de tudo aquilo que nos enuncia quanto pessoas negras, o que inclui o nosso cabelo. Autoestima está minada pelo racismo.

Não tem como eu não lembrar da minha infância, quando pegava as fronhas dos travesseiros e amarrava na cabeça para brincar, porque queria que meu cabelo fosse liso e crescesse pra baixo, e não crespo e para cima. Utilizei inúmeros processos químicos no cabelo durante 15 anos. Cheguei a ter queda de cabelo e queimadura no couro cabeludo. Durante 15 anos eu não sabia como o meu cabelo era de forma natural.

FD: O que te motivou a assumir o seu cabelo natural?

Thayná: Ter homens e mulheres negras como espelhos, como referenciais positivos de beleza e afirmação. Durante toda a minha infância, só lembro de ter tido uma boneca negra e como eu adorava brincar com ela, carregá-la no colo, pentear os cabelos. Naquele momento eu não entendia, mas já sentia o quanto era especial me ver naquele brinquedo que era parecido comigo. Eu sentia a mesma coisa quando via mulheres negras com seus cabelos naturais. Eu me via possível quando olhava para elas.

Até que um dia, depois de um processo químico, meu cabelo já estava muito quebrado. Eu não me reconhecia no espelho e já me sentia mal com tudo aquilo. Então conheci uma mulher negra, que foi integrante de um coletivo de extrema importância pra mim: Meninas Black Power. Ela me falou sobre o coletivo formado só por mulheres negras, da importância de nos afirmarmos, olharmos pro espelho e amarmos o que vemos. Aquele encontro foi necessário para que eu voltasse a enxergar os espelhos ao meu redor e perceber que eu poderia ser um também. Representatividade não é um termo do agora. Foi e é algo que sempre buscamos e tivemos, mas que era invisibilizado.

FD: Como foi a sua transição capilar? Fez big chop? Conta um pouco sobre sua história com o cabelo.

Thayná: Eu passei por dois momentos de transição: no primeiro, fiquei seis meses sem usar nenhuma química, mas a finalidade era trocar de produto. Sair do relaxamento e ir para o permanente afro, que deixa o cabelo mais enrolado. Quando eu cortei o cabelo para passar o permanente, fiquei com ele bem curtinho e natural. Eu literalmente não conseguia me olhar no espelho, não via aquela pessoa há anos. Foi a primeira vez, depois de 15 anos, em que vi o meu cabelo todo natural. Entrei em choque e logo fiz o permanente. Mais de três horas no salão e todo aquele processo novamente. O que é importante ressaltar é que toda e qualquer pessoa tem o direito de fazer o que bem quiser no cabelo, mas não podemos negar que a motivação que leva as mulheres e homens negros a passar por esse processo doloroso de química está em alcançar um padrão de beleza que não nos contempla ou acolhe, um padrão branco e liso.

Para além de mudar o cabelo, existe aí o que a psicanalista Neusa Santos vai chamar de "ideal de ego", onde num processo de embranquecimento o negro é violentado pela sua própria negação. Quando entendi isso, passei pela minha segunda transição, que foi muito mais de dentro pra fora. Depois de 1 ano e 8 meses finalmente cortei meu cabelo, em casa mesmo. Eu passava as mãos nele e não acreditava, tocava naqueles fios e não acreditava. Era eu ali, inteira. A transição tem muito mais a ver com autoconhecimento e a compreensão de que nosso cabelo carrega uma história que nos foi negada. Ao menos para mim foi assim!

FD: O que faz para cuidar do seu cabelo crespo hoje em dia? Faz algum tratamento ou já experimentou alguma receita caseira? Tem algum truque para compartilhar?

Thayná: No início da transição e até os dias de hoje, o que me ajudou e ajuda muito foram os grupos das redes sociais. São milhares de mulheres que trocam experiências, receitas caseiras de hidratação, histórias de aceitação e autoconhecimento. Um espaço de afeto e escuta que eu não achava em salões, já que a primeira pergunta quando eu entrava em um era se eu não gostaria de alisar para "abaixar a raiz". Então aprendi a fazer muita coisa em casa. A minha receita favorita é a hidratação de abacate, o cabelo fica supermacio e brilhoso. O meu é um tipo 4b/4c, com tendência a ser mais ressecado, então essa hidratação é uma salvação. Bato no liquidificador o abacate com um pouco de água e depois, em uma vasilha, acrescento o creme de hidratação, óleo de coco e azeite extravirgem. Deixo de 15 a 20 minutos e lavo normalmente.

FD: O cabelo mexe muito com a autoestima da mulher. Como você lida com essas questões como autoestima, amor-próprio e autoceitação?

Thayná: A feminilidade e o lugar da beleza sempre foi negado a nós, mulheres negras. É importante ressaltar que sempre que nos posicionamos quanto protagonistas das nossas próprias histórias, dores e alegrias, há um discurso que desqualifica e reduz nossas vivências a "vitimismo", como já escutei e li algumas muitas vezes. Ir na contramão desse caminho é um processo diário, inclusive de conhecer a própria história. De saber que não somos descendentes de escravos, e sim de pessoas que foram escravizadas, que tinham histórias, reis e rainhas, sujeitos autores das suas próprias narrativas. Retornar à África, às minhas raízes, reconhecer e enxergar a beleza dos meus iguais e, consequentemente, a minha é o que reconstrói minha autoestima todos os dias.

FD: E em relação aos outros? Acha que a sociedade ainda é muito limitada pelos padrões ou acredita que isso já está mudando?

Thayná: Eu acredito na mudança a partir da conscientização e na que acontece não só hoje, porque antes de mim há uma imensidão de história e resistência, e posso dizer que faço parte dela também. Sou do projeto África em Nós, que dialoga sobre racismo nas escolas e a construção da nossa identidade enquanto negros e negras. E a gente percebe na prática que ninguém nasce racista ou preconceituoso. Isso se aprende, internaliza e se reproduz. Já ouvi crianças de menos de 10 anos afirmando que se odeiam por conta dos traços que as compõem; já fomos em uma escola onde uma menina foi hospitalizada porque tomou banho de cloro para se tornar branca, porque disseram à ela que ser negra era feio.

A gente aprende tudo isso, e desconstruir esses conceitos perpassa pelo caminho de reconhecer que eles são reais e violam a existência de outras pessoas. Antes de tudo é preciso reconhecer privilégios, abraçar e respeitar as diferenças e parar de romantizar o discurso de que somos todos iguais! Essa mania que a gente tem de homogeneidade só nos impede de enfrentar o problema de frente.

FD: Se pudesse dar uma dica para as leitoras que estão em transição ou ainda têm dificuldades para assumir o cabelo natural, o que diria a elas?

Thayná: Se permita amar quem você é! Aproveite a transição como um processo de autoconhecimento. Entender isso, apesar de não me livrar, me poupou de desabar ou entristecer diante dos olhares e das falas de desmotivação como "vai deixar o seu cabelo assim?", "por que você não relaxa?" ou a clássica "preferia o seu cabelo antes". A transição é muito mais sobre quem você é do que sobre o que as pessoas pensam sobre você. Seja livre para pintar, trançar, escovar, cortar, pranchar, mas, antes de tudo, seja livre para ser quem você é! Bonito é isso, é ser a gente sem ter medo!

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